The Step


O sorriso delicado sobre a vida, a felicidade refletida nos olhos - como a luz laranja do amanhecer que pinta o mar. Já havia passado pelo beco escuro com o chão esburacado, cujo caminho tortuoso também apresentava paredes estreitas e ásperas. Confessa o tremor das pernas ao se deparar com o primeiro degrau, assim como o medo de se desequilibrar no momento em que, como se durasse uma eternidade, uma perna se estendia lentamente de encontro à subida, enquanto a outra mantinha-se no chão servindo de apoio. E no meio do caminho, cometeu o erro de parar, e com um pé no ar e outro no chão resolveu pensar. Mirabolou mil hipóteses, se concentrou em mil poréns, servindo só para aumentar o tamanho do degrau. E quando este já tinha se transformado em arranha-céu, percebeu que era sua última chance de subir. Sem muito equipamento escalou, escalou, suou, chorou e tão preocupada em olhar pra baixo com medo de cair, de repente parou. Estava se sentindo tão confortável que quando pôde reparar, seus dois pés estavam em terra firme. E quando finalmente olhou à frente, enxergou a beleza misteriosa de um campo infinito ao seu redor. Com o coração acelerado e uma vontade de correr livre, disse pra si:

- Bem-vinda ao seu novo início.

knock-out

Tomou um de esquerda e outro de direita, derrubando-lhe no chão. Sentada sustentada pelas mãos, lutando para não se deixar cair por completo, percebia o sangue escorrer da boca, enquanto ainda imóvel – mesmo apesar da respiração ofegante –, assustada, olhava incrédula pro vazio. Chocada com o que lhe acabara de acontecer, esforçava-se pra não deixar o acontecido entrar em sua mente. Já não era possível: as gotas de sangue já chegavam ao chão e cada pingo ressoava como pratos de bateria, cujo agudo naquele silêncio retalhava-lhe o corpo e, principalmente, a alma. Desejou se afogar em uma hemorragia, onde pelo menos poderia tornar-se surda.

Os golpes não pararam. Agora, desprovidos da força física, estes eram muito mais fortes. Com o viés das palavras, eram como pauladas em sua restante sustentação. E enquanto era acusada de só tirar, de ser parasita, encontrava a dor diante de um ser que só dava, dava, dava-lhe tristeza, descontentamento e as já comuns lágrimas. Entretanto, no meio de tanta covardia, um sorriso no canto do lábio apareceu, no momento em que uma gota que havia saído dos olhos, passava pela boca e encontrava-se com uma de sangue. Era um breve espasmo de felicidade contemplando o julgamento de seu ser, que, pelo menos, não trazia dor a ninguém.